Sempre fiz exercícios físicos. Impensável isso não fazer parte da minha vida. Claro, assim como para todas as pessoas, as modalidades que fiz tinham como meta me levar a um objetivo para além da modalidade. Por exemplo, musculação me ajudaria a hipertrofiar o que me ajudaria a ter auto estima, o que me ajudaria com as meninas. Mas eu também gostava de treinar musculação. Criava desafios internos, testava meus limites e isso me motivava a permanecer constante. Fazia por gosto pela aquela vivência.
Já a corrida, nunca gostei de fazer. Essa foi sempre pela obrigação para me levar a algum outro objetivo e nada mais. Nunca foi porque sentia prazer enquanto fazia. Pelo contrário. Ainda criança, detestava quando os professores mandavam correr em volta do campo. Fazia porque me ajudaria a jogar futebol melhor. Depois de adulto, corria somente para ajudar no shape ou para acompanhar algum aluno ou amigo. Nunca havia sido porque eu gostava de correr.
Mas algo mudou. Resolvi usar a corrida para um fim específico. Desafiar meus limites e isso demandaria fazer para mim, o que fazia para os alunos. Criar uma programação específica. Nada de treinos aleatórios.
Para conseguir executar aquilo que programei, precisei criar em mim algo que todo corredor de longa distância tem. Uma identidade.
Quando falamos em corredores de longa distância, pensamos o quanto essas pessoas são resilientes, pacientes, não se desesperam por ter que ficar horas fazendo o mesmo movimento. Também, logo nos vem à cabeça a disciplina, capacidade de suportar a dor, como são bons planejadores, cuidadosos com a rotina e alimentação. Chama atenção também, como são bons em dizer “não” para aquilo que pode atrapalhar seus objetivos.
Na Terapia Cognitivo Comportamental temos uma premissa que comportamentos geram evidências, evidências geram crenças, crenças geram identidade e identidade geram comportamentos e esse ciclo se fortalece cada vez mais.
Por isso, desde o início, sempre venho modelando àquelas pessoas que já conseguem fazer o que eu desejo alcançar.
Sempre que tenho um treino desafiador, ou estou com vontade de pular um treino, mudar uma refeição ou desistir de uma meta, faço-me uma pergunta:
“O que o corredor de longa distância que quero me tornar faria?”. Já quando estou no meio do treino e ele está maçante, demorado, parecendo não fluir afirmo para mim mesmo:
“Você é o corredor de longa distância que consegue manter a calma, paciência. Você é como aquele sniper que fica horas numa posição esperando a hora certa de apertar o gatilho, uma única vez, para dar o tiro certeiro”. Também busco nos meus pensamentos a lembrança que ser corredor de longa distância é ser meticuloso, obcecado, calculista, frio, metódico, consciencioso.
Dessa forma, “relembro” meu cérebro quem estou me tornando, reforço a identidade e como vimos, ela nos leva a comportamentos no caso seguir o treino. Isso me gera evidências que estou me tornando realmente um corredor de longa distância. Aumenta a minha crença nessa identidade e assim reforço esse ciclo. Tornando me cada vez mais capaz de suportar aquilo que é preciso para alcançar meus objetivos.
Sabe o que me encanta nisso? Passei a amar correr. Nem consigo dizer mais se gosto tanto porque cultivei essa identidade ou se por ter aprendido gostar, consegui enraizar essa identidade.
O fato é que já havia passado por esse processo antes, para outros fins. Contudo, nesse caso, de forma inconsciente, sem saber quais eram os passos e estratégias técnicas para isso. Isso aconteceu quando resolvi estudar para o vestibular e aprendi a ser uma pessoa estudiosa, mesmo até aquela época, acreditando numa identidade contrária; a de alguém que não gostava de estudar. Também fiz isso para ser uma pessoa mais comunicativa, para beber menos e outras situações.
Mas foi na corrida, aí sim com conhecimento técnico não só de treinamento físico, mas comportamental, que usei estratégias e técnicas claras e de forma intencional.
Muito por isso, consigo ajudar tantos alunos a conseguirem objetivos que antes pareciam impossíveis para eles. As mudanças são lentas, mas são notórias e substanciais. O processo é constante, mas prazeroso, sentir que está se tornando a pessoa que deseja ser.
A identidade é algo forte, que molda como lidamos em cada situação. Ela nos leva a padrões. Isso pode ser uma prisão, mas com a técnica e abordagem certa, podemos transformar “a água para o vinho”.
Essa história me mostra que posso ter grandes conquistas que ainda não alcancei, mas antes eu preciso modelar com clareza e assertividade a identidade certa.
Você tem se comportado como alguém que já conseguiu os objetivos que você deseja alcançar? Conte para mim
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