Talvez você corra sem relógio, não tenha Strava, nunca tenha feito uma planilha de treinamento.
Talvez nem saiba exatamente qual é o seu pace. Tudo bem. Mas nada disso faz o pace deixar de importar.
Você provavelmente também não mede a qualidade do ar antes de sair de casa. Mesmo assim, você prefere respirar um ar limpo. Você se preocupa com poluição. Apoia medidas para melhorar a qualidade do ar. Escolhe, quando pode, ambientes mais agradáveis para respirar. Você não monitora a variável. Mas a variável continua agindo sobre você.
Com o pace acontece algo semelhante. Você pode ignorá-lo, não o medir. Pode decidir que nunca vai competir com ninguém. Mas a velocidade na qual seu corpo consegue correr continua alterando as possibilidades que você tem dentro da corrida e por isso que eu quero começar pela fisiologia.
Vamos correr uma maratona a 7:00/km.
42,195 km nesse ritmo significam aproximadamente:
4 horas e 55 minutos correndo.
Agora imagine que, depois de meses ou anos de treinamento, essa mesma pessoa desenvolveu capacidade para completar a maratona a 6:00/km.
A prova passa para aproximadamente 4 horas e 13 minutos. Quase 42 minutos a menos correndo e isso não é apenas número em um relógio.
Durante uma prova longa, seu organismo está tentando dissipar calor, manter equilíbrio hidroeletrolítico, disponibilizar substratos energéticos, manter contrações musculares repetidas, regular percepção de esforço e sustentar comportamento apesar da fadiga.
Calor e desidratação inclusive modificam a utilização de substratos durante exercício prolongado. Uma revisão sistemática e meta-análise recente encontrou maior oxidação de carboidratos e utilização de glicogênio sob estresse térmico, com efeitos adicionais da desidratação em determinadas condições.
Quanto mais longa a prova, mais tempo você precisa administrar todas essas demandas.
Isso não significa que 6:00/km seja fisiologicamente mais fácil que 7:00/km.
Obviamente não.
Se você simplesmente mandar alguém despreparado acelerar, o custo metabólico por minuto aumenta. Mas estamos falando de outra situação. Estamos falando de treinar o organismo até que ele seja capaz de sustentar uma velocidade maior e isso muda completamente a discussão.
Melhorar o pace significa menos tempo de exposição ao estresse físico e mental que uma prova impõe.
O pace importa inclusive quando você quer correr devagar
Talvez esse seja o argumento que mais passa despercebido.
Imagine duas pessoas correndo juntas a 7:00/km. Para uma delas, esse pace está próximo do limite daquilo que ela consegue sustentar correndo. Para a outra, que consegue correr confortavelmente muito mais rápido, 7:00/km representa uma intensidade muito baixa.
O relógio mostra: 7:00/km para as duas, mas fisiologicamente elas não estão fazendo a mesma coisa.
Uma está perto do teto enquanto a outra tem margem e isso é liberdade.
Se aparece uma subida, ela tem margem.
Se está quente, tem margem.
Se dormiu pior, tem margem.
Se quer conversar, tem margem.
Se precisa desacelerar, tem margem.
Se quer apreciar a paisagem, tem margem.
Se está cansada no quilômetro 15, tem margem.
Performance não serve somente para permitir que você corra rápido.
Ela permite que você corra devagar gastando uma parcela menor daquilo que possui.
Você não precisa correr no limite.
Mas é muito bom possuir um limite maior.
Existe ainda uma diferença importantíssima: seu repertório de velocidades
Imagine alguém cuja corrida começa em aproximadamente 7:30 ou 8:00/km.
Qualquer redução significativa de velocidade pode fazer com que a pessoa transicione para a caminhada. Isso não torna aquela pessoa “menos corredora”, mas limita suas opções locomotoras naquele momento.
Agora imagine alguém capaz de correr a 5:00/km. Em um dia ruim ela pode correr a 5:30, pode ir para 6:00, 6:30, 7:00 e continuar correndo.
Ela possui uma faixa muito maior dentro da qual consegue regular a intensidade sem precisar necessariamente mudar da corrida para a caminhada.
Isso é repertório motor e fisiológico.
“Mas correr devagar protege minhas articulações.”
Cuidado.
Essa afirmação também não é tão simples quanto parece.
A biomecânica da corrida muda conforme a velocidade. Velocidade, frequência de passada, comprimento da passada, duty factor, forças aplicadas e características temporais da passada estão inter-relacionados.
Inclusive, alterações na frequência de passada podem modificar excursão vertical, forças de reação do solo e absorção de energia nas articulações.
Mas existe um erro importante aqui.
Menor tempo de contato com o solo não significa automaticamente menor risco de lesão.
E maior velocidade também não significa automaticamente melhor biomecânica.
A revisão sistemática e meta-análise de Van Hooren e colaboradores mostra justamente como é perigoso pegar uma única variável biomecânica e transformá-la em explicação universal para economia de corrida. Muitas relações isoladas são pequenas, inconsistentes ou inexistentes
.
Por isso, precisamos desenvolver capacidade para lidar com diferentes demandas e ter repertório para experimentar diferentes ajustes para, inclusive, se proteger.
Seu corpo aprende a produzir força em velocidades diferentes, organizar passadas diferentes, responder a terrenos diferentes, administrar diferentes intensidades, correr cansado, correr descansado, acelerar, desacelerar.
Um corredor melhor treinado possui uma caixa de ferramentas maior. Isso gera mais possibilidade inclusive de prevenção de dores e lesões.
E existe a economia de corrida
Economia de corrida representa, de maneira simplificada, o custo energético necessário para correr em determinada velocidade submáxima.
Ela é importante para performance de endurance e sofre influência de múltiplos componentes fisiológicos, neuromusculares e biomecânicos. Não existe uma única “técnica econômica” universal.
E isso nos leva novamente à mesma conclusão:
treinar performance não significa aprender a sofrer mais.
Significa produzir determinada tarefa com um organismo mais preparado para ela.
Agora começa a ficar estranho dizer que pace não importa.
Mas ainda nem chegamos à parte mais interessante.
“Eu não ligo para pace.”
Ótimo.
Então me diga seu pace.
...
Percebe?
Para algumas pessoas essa pergunta é completamente neutra.
“Corro mais ou menos a 6:40.”
Fim.
Mas para outras ela parece quase uma invasão.
Começam imediatamente as justificativas:
“Eu corro para mim.”
“Eu não tenho essa neura.”
“Não fico competindo.”
“Corrida para mim é saúde mental.”
“Eu não preciso provar nada para ninguém.”
Curioso, pois eu perguntei apenas o pace. Todo o restante foi você quem colocou na pergunta e aqui começa nossa conversa sobre psicologia.
Talvez você não tenha parado de competir.
Talvez tenha mudado a competição de lugar.
Existe uma maneira bastante inteligente de proteger a autoestima quando determinada dimensão ameaça nossa percepção sobre nós mesmos.
Desvalorizar a dimensão.
Se aquilo em que estou sendo comparado deixa de possuir valor, minha posição naquela comparação também deixa de me ameaçar. Isso pode acontecer em inúmeros domínios da vida.
Dinheiro.
Inteligência.
Aparência.
Carreira.
Relacionamentos.
Performance esportiva.
E então surge uma narrativa extremamente confortável:
“Pace não importa.”
Veja que é diferente de dizer: “Pace não é minha prioridade.”
Isso seria perfeitamente coerente. Também é diferente de: “hoje eu não quero buscar performance.”
Perfeitamente legítimo, mas afirmar que não importa exige apagar fisiologia, biomecânica, treinamento esportivo e até possibilidades práticas que acabamos de discutir.
Por quê?
Talvez porque admitir que algo importa também nos coloca diante da possibilidade de perceber que ainda não somos bons naquilo e isso pode doer.
E aqui entra o grupo
Nós somos profundamente sociais.
Nossas crenças não são construídas isoladamente. Grupos criam normas, linguagem, valores. Criam aquilo que passa a ser considerado aceitável pensar.
A literatura sobre identidade social mostra que pertencimento e autocategorização influenciam atitudes e comportamentos. Grupos podem construir aquilo que pesquisadores chamam de shared reality, uma realidade compartilhada que ajuda seus integrantes a validar experiências, sentimentos e identidade.
Agora imagine encontrar centenas de pessoas repetindo:
“Pace não importa.”, “Quem olha relógio não sabe aproveitar.”, “Corredor de verdade corre por prazer.”, “Eu não tenho ego.”
Isso produz algo extremamente poderoso: pertencimento.
Você não precisa mais confrontar sozinho aquilo que sente, pois existe um grupo inteiro dizendo que aquilo que incomodava você nunca teve importância.
O alívio é real, mas alívio psicológico não transforma necessariamente uma crença em verdade.
Às vezes apenas torna aquela crença muito confortável para abandonar.
E pode acontecer algo ainda mais curioso
A pessoa começa a construir identidade em torno da ideia de não se importar.
“Eu sou o corredor que não liga para pace.”
Agora temos um problema. Porque deixou de ser uma opinião sobre treinamento e virou parte da identidade e quando uma crença passa a proteger identidade e pertencimento, argumentos contrários podem ser experimentados de maneira muito mais pessoal.
Por isso vou deixar uma provocação:
Se tudo que você leu até aqui está incomodando demais, talvez valha observar exatamente o que está sendo incomodado.
Estou atacando você? Ou estou questionando uma crença?
Porque são coisas completamente diferentes.
Se apresentar argumentos fisiológicos sobre pace produz a sensação de que você está sendo atacado, existe a possibilidade de essa ideia estar muito mais misturada à sua identidade do que você imaginava.
E aqui aparece a ironia: talvez o pace importe para você muito mais do que o seu discurso admite.
Se realmente fosse irrelevante, estes argumentos seriam apenas interessantes ou inúteis. Não ameaçadores.
“Mas corrida é minha saúde mental. Não quero cobrança.”
Essa frase merece atenção.
Porque saúde mental virou, algumas vezes, sinônimo de: “Não quero experimentar desconforto.” e são coisas diferentes.
Um cérebro saudável não é um cérebro permanentemente confortável. Nós precisamos conseguir experimentar frustração, adiar recompensa, mobilizar esforço, persistir, mudar estratégia, fracassar, atualizar expectativas, perceber progresso, tolerar períodos sem progresso, sentir motivação, recuperar motivação, regular emoção diante de resultados que não gostaríamos de receber.
Isso também é funcionamento psicológico.
Motivação, esforço e recompensa fazem parte do cérebro saudável
O sistema dopaminérgico participa profundamente da motivação e do comportamento orientado a recompensas.
Uma revisão recente sobre neuroquímica do esforço descreve a dopamina como elemento importante na disposição para exercer esforço e na energização do comportamento, dentro de uma rede muito mais ampla de sistemas neuroquímicos.
Outra revisão sobre dopamina e esforço destaca sua forte relação com recompensa futura e promoção de ações direcionadas a recompensas.
Pense no treinamento.
Você sofre hoje por uma adaptação que não aparece hoje. Corre tiros agora por uma prova daqui a três meses. Vai à academia hoje para suportar melhor quilômetros que ainda nem existem. O treinamento esportivo inteiro é uma aula prática de comportamento orientado para recompensa futura.
E isso pode ser psicologicamente muito rico.
Então chegamos à frase: “Não olho pace porque não quero me cobrar.”
Talvez em alguns dias essa seja uma excelente escolha.
Eu também defendo correr sem relógio em determinados contextos.
Mas existe outra possibilidade que merece ser considerada: e se o problema não estiver no pace?
O relógio não cobra ninguém. Ele mostra um número. 5:30. 6:17. 7:04.
Quem produz todo o significado depois disso é você. “Estou pior.” “Sou ruim.” “Fulano corre mais.” “Meu treino foi um fracasso.” “Estou decepcionando meu treinador.” “Nunca vou conseguir.”
Nada disso estava escrito no Garmin, mas apareceu na interpretação. Então retirar o relógio pode retirar o gatilho.
Mas não necessariamente modifica a relação psicológica que você possui com desempenho, fracasso, comparação e expectativa.
É exatamente aqui que a TCC fica interessante
Não estou dizendo que treinamento de corrida seja psicoterapia.
Mas existe uma analogia comportamental muito útil.
Na terapia de exposição, evitar continuamente estímulos temidos pode impedir determinadas aprendizagens corretivas. Modelos contemporâneos enfatizam aprendizagem inibitória, violação de expectativas, variabilidade e redução de determinados comportamentos de segurança.
Por quê?
Porque em determinadas circunstâncias você precisa entrar em contato com aquilo que teme para descobrir:
“Eu consigo lidar com isso.”
Agora traga o princípio para a corrida.
“Tenho medo de tentar e fracassar.”
Tente.
“Tenho medo de olhar o pace e perceber que estou lento.”
Olhe.
“Tenho medo de estabelecer uma meta e não conseguir.”
Estabeleça.
“Fico frustrado quando meu desempenho piora.”
Aprenda a experimentar frustração sem transformar frustração em desistência.
“Fico incomodado quando alguém corre mais rápido.”
Excelente informação sobre você.
Observe.
Questione.
Trabalhe.
Porque existe uma diferença entre: reduzir uma cobrança disfuncional e eliminar todas as situações capazes de despertar a cobrança.
Você não precisa proteger sua autoestima do relógio.
Talvez precise construir uma autoestima capaz de sobreviver ao relógio.
Essa diferença é enorme.
5:00/km não faz você melhor que ninguém.
7:00/km não faz você pior.
Um recorde pessoal não aumenta seu valor como ser humano, assim como um treino ruim não reduz.
Mas justamente porque seu valor não deveria depender disso, você deveria conseguir olhar para essas informações sem precisar fugir delas.
Eu fui mal hoje.
Tudo bem.
Ainda não consigo correr nesse pace.
Tudo bem.
Meu amigo corre muito mais rápido que eu.
Tudo bem.
Treinei durante meses e melhorei apenas dez segundos.
Tudo bem.
Eu queria 1h45 e fiz 1h51.
Tudo bem.
Agora:
O que aconteceu?
O que posso aprender?
O que posso mudar?
Quando tento novamente?
Isso é muito mais interessante do que:
“Pace não importa.”
Talvez pace não seja o vilão que você imaginou.
Talvez seja um espelho.
Ele mostra algo sobre a capacidade que você possui hoje. Só isso.
Pace não deveria determinar seu valor.
Mas daí concluir que pace não importa é dar um salto gigantesco.
Ironicamente, quando você precisa construir toda uma filosofia para explicar por que ele não importa...
talvez ele esteja importando até demais.
A corrida pode ser prazerosa e desafiadora ao mesmo tempo
Você pode correr olhando paisagem.
Pode conversar, correr sem relógio, buscar sub-3 numa maratona, fazer intervalado no pau, correr 30 minutos porque estava com vontade, competir, não competir.
Não importa o motivo
Quanto maior sua capacidade, mais dessas experiências ficam disponíveis para você.
É por isso que eu gosto tanto da ideia de performance como liberdade.
Treinar não serve apenas para diminuir números no relógio.
Serve para aumentar aquilo que você consegue fazer.
Quanto maior sua capacidade, maior sua possibilidade de escolha.
Portanto, talvez a verdadeira liberdade não esteja em precisar dizer que ele não importa.
Está em conseguir olhar para ele, aceitar o que ele diz hoje, trabalhar para mudar o que você deseja mudar e continuar perfeitamente bem consigo mesmo enquanto faz isso.























