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O que a maratona e o primeiro beijo têm em comum?

 Você estava lá, diante da pessoa que lhe fazia tremer as pernas e de repente os seus lábios se tocaram. Um estalo, um selinho... 1 segundo, talvez dois ou três. O primeiro beijo concretizado.

Ao mesmo tempo que foi rápido, foi eterno. Ao mesmo tempo que gerou medo, insegurança, tensão, gerou felicidade, alívio, orgulho satisfação e o sentimento de plenitude.

Para alguns o primeiro beijo foi mágico, para outros foi indiferente, infelizmente, para alguns foi traumático e era melhor que nem tivesse acontecido. Para alguns, como eu, nem nos lembramos.

O fato é que o primeiro beijo só existe uma única vez. Não importa quantos beijos você deu depois disso. O primeiro nunca mais vai existir.

Na vida, a primeira vez de qualquer coisa que você faça, nunca mais se repetirá e deixará um registro ne seu cérebro. Poderá moldar toda sua vida, a depender do que se tratava e acima de tudo, de como você digeriu todo esse momento.

A maratona não foge dessa regra. Correr a sua primeira maratona só acontecerá uma única vez e se vocês está aqui comigo, parece-me que está prestes a acontecer ou ela foi marcante na sua vida, caso já tenha feito a sua estreia.

Para os iniciantes, tenho algo muito importante a dizer, assim como o primeiro beijo pode ser maravilhoso ou ser desastroso a maratona também corre esse risco.

Um beijo precoce, inesperado, sem preparo mental principalmente deixa marcas terríveis. Uma maratona sem o devido preparo físico, sem o respeito pelo que isso significa e sem principalmente a maturidade psicológica para esse grande momento, poderá trazer traumas irreparáveis na sua vida de corredor.

Não é incomum nos depararmos com maratonistas que afirmam nunca mais querer correr uma maratona. Assim como aquele que lidou mal com o primeiro beijo e depois dali teve uma vida inteira de dificuldades nos relacionamentos, aquele que só tem lembranças ruins da maratona possivelmente terá grandes dificuldades de relacionamento com a maratona.

Caso você esteja prestes a debutar na maratona, não se intimide por ela. Imagino que agora você está nervoso, como medo de não conseguir, achando que não é para você, que foi um erro ter se inscrito.

Mas muito provavelmente seu corpo já está pronto para os 42,195km. Agora é sua mente o maior obstáculo. Por isso, acredite, não é o resultado da prova que vai definir sua vida corredora, assim como não é o primeiro beijo que definirá seus relaciona,entos. Mas como você vai deixar isso afetar você.

“Não são as coisas que nos perturbam, mas os julgamentos que fazemos sobre elas.” EPICTETO

Dito isso, acredite, você está achando que a preparação é longa, difícil. Vai achar também que a prova é longa, interminável. Mas como aquele primeiro beijo que durou poucos segundos foram rápidos e eternos ao mesmo tempo, a maratona será da mesma forma. Escrevo aqui já tendo corrido 50km em um único treino. Já fiz outras maratonas e acredite, depois de passado, todo o processo, se feito adequadamente, você sentirá saudades e principalmente que foi tão rápido que nem teve tempo de desfrutar. Não importa quantas outras fizer, vai ter sempre saudades e carinho dessa primeira maratona.

Para aqueles que já fizeram e tiveram traumas e nunca mais querem fazer, vocês têm a oportunidade de usar isso a seu favor, como crescimento, como desenvolvimento da capacidade de superar traumas que poderá ser usado para a vida toda. Assim como uma pessoa que teve o primeiro beijo desastroso, mas soube lidar com isso para ter relacionamentos saudáveis, você também pode fazer a mesma coisa com a maratona. Acredito, inclusive, que um segundo ciclo, após um primeiro traumático, será ainda mais transformador do que se o primeiro tivesse sido agradável.

Para você debutante, aproveite. Escolha uma prova alvo que você se identifique com o lugar, chame os familiares para torcer, registre todos os momentos, tire fotos, faça vídeos, converse com os amigos sobre isso, cuide dos seus equipamentos, desfrute da jornada. Permita-se experenciar, sem comprometer o planejamento. Faça desse primeiro beijo, ou melhor primeira maratona, algo especial.

Você vai passar por uma montanha russa de sentimentos, vai temer, vai ficar ansioso, vai sorrir, vai chorar, não lute com seus sentimentos. Apenas os observe, contemple-os. Isso tudo faz parte do pacote “transforma pela maratona”. Assim como o primeiro beijo, sinta-o. Viva o momento.
Vai se conectar com Deus, vai sentir que é ele quem corre os últimos quilômetros por você. A respiração vai falhar, não pelo cansaço, mas pelo choro de emoção antes mesmo de acabar.

É lindo, é eterno, é mágico. Não me lembro do meu primeiro beijo, mas me lembro da primeira maratona e até hoje sinto a emoção dela correndo pelo meu corpo.

Seu cérebro vai registrar essa experiência, decida como quer que ela seja lembrada. Sua primeira maratona vai ser seu primeiro beijo pela segunda vez.

Parabéns, estreante, você agora é um maratonista!

A largada da maratona vai intimidar você

 A largada da primeira maratona pode ser extremamente intimidante.

Você olha ao redor e vê centenas, às vezes milhares de pessoas aparentemente prontas. Alguns aquecendo com intensidade, outros sorrindo. Alguns brincando, gritando, conversando alto, demonstrando confiança.

Enquanto isso, você pensa:

“todo mundo parece preparado, menos eu.”

“acho que não sou capaz.”

“Todo mundo vai conseguir, menos eu”

Isso faz muito sentido do ponto de vista da neurociência e do comportamento humano.

Você passou semanas ou meses acumulando fadiga física e mental. Fez treinos longos, acordou cedo, lidou com dores, dúvidas, oscilações emocionais, medo de não conseguir.

Seu cérebro sabe que algo importante está prestes a acontecer e por isso aumenta o estado de vigilância.

Área cerebral, responsável pela detecção de ameaças, aumenta sua sensibilidade, o estado de alerta. O cérebro começa a procurar sinais de perigo, incapacidade e risco ao redor.

O problema é que ele passa a interpretar o comportamento dos outros corredores como prova de que eles estão preparados e você não.

Você vê alguém aquecendo forte e pensa:

“ele está pronto.”

Vê alguém sorrindo e pensa:

“ela está tranquila.”

Vê alguém com postura confiante e conclui:

“todo mundo consegue, menos eu.”

E então surge aquela sensação de deslocamento. Como se você não devesse estar ali.

Isso piora quando você está sozinha, sem companhia, sem alguém experiente ao lado para normalizar aquele turbilhão emocional.

Mas existe uma armadilha cognitiva acontecendo ali.

Seu cérebro está comparando o seu estado interno com o comportamento externo das outras pessoas.

Porém você conhece suas inseguranças, as dos outros, não.

Muitas ali também estão ansiosos, mas manifestam de formas diferente.

Alguns ficam calados.

Outros falam sem parar.

Alguns se fecham.

Outros começam a rir excessivamente.

Alguns gritam:

“VAMOOOO!”

“Pra cima!”

É uma tentativa do cérebro de descarregara tensão emocional.

O corpo aumenta a ativação fisiológica e a pessoa tenta regular isso através da fala, da excitação, do movimento e da interação social.

Seu cérebro percebe toda aquela movimentação coletiva e entende:

“isso é importante.”

“isso exige atenção.”

“isso pode ser perigoso.”

Então, sua frequência cardíaca sobe, respiração muda, corpo tensiona, pensamento acelera e você interpreta isso como incapacidade.

Você não precisa parecer confiante para ser capaz. A maratona não exige ausência de medo. Ela exige continuidade apesar dele.

Quase ninguém naquela largada está totalmente tranquilo.

Inclusive muitos dos atletas que aparentam mais confiança já passaram pelas mesmas inseguranças que você está sentindo agora.

A diferença é que aprenderam a interpretar aquela ativação fisiológica não como sinal de incapacidade, mas como sinal de importância.

Seu cérebro não está “agitado” porque você é fraca, mas porque entende que aquilo importa.

A largada da maratona não reúne pessoas sem medo e sim aquelas que decidiram continuar mesmo sentindo medo e talvez seja exatamente isso que torna a maratona tão especial.

Conheça meu novo programa Trilha da Mente Forte Especial para quem já percebeu que tem padrões de pensamentos que sempre levam aos mesmos comportamentos e resultados ruins. 

Por que competir?

 A competição esportiva é uma das experiências mais poderosas de desenvolvimento humano que existem. Inclusive para quem nunca vai viver do esporte profissionalmente. Sim, para você mesmo, atleta amador.

Muita gente chega até mim dizendo:

“Eu só quero completar.

Isso é ótimo, pois já é uma competição. Por que competir, não precisa ser contra alguém e no fundo, toda competição é muito mais contra nós mesmos e entender isso já muda o jogo.

O “simples” “só completa

r” já representa romper uma barreira enorme. O sedentário quer sair do sofá. O iniciante quer acreditar que consegue. O obeso quer voltar a confiar no próprio corpo. O ansioso quer sentir novamente que consegue sustentar algum desconforto sem fugir.

Só que existe uma coisa interessante.

Quando a pessoa começa a correr, ela não muda apenas o condicionamento físico. Ela muda a forma como se enxerga.

E é justamente aí que nasce o desejo de melhorar.

Ela começa querendo completar 5km. Depois quer correr sem caminhar. Depois quer baixar o pace. Depois quer fazer uma meia maratona. Depois quer descobrir até onde consegue ir.

Isso não acontece apenas por vaidade. Existe um componente neurobiológico importante nisso.

O cérebro humano funciona muito através de antecipação de recompensa. O sistema dopaminérgico não atua apenas quando conquistamos algo. Ele aumenta atividade principalmente quando existe possibilidade de conquista.

Além disso, o cérebro tem áreas responsáveis por medidas (grande, pequeno, baixo, alto, rápido, lento...) que são importantíssimas para que outras áreas, responsáveis por avaliar se um esforço vale a pena, possa ter parâmetros de avaliação adequados e a competição é excelente para medir essa própria capacidade, limites e possibilidades.

Uma competição gera um alvo, uma meta. Isso cria clareza e direção concreta, o que facilita o engajamento, proporcionando um ambiente fértil para cultivar comportamentos voltados aos objetivos.

Um outro fator importante faz a competição ser tão atrativa. A incerteza. O sistema, dentro do nosso cérebro, que gera energia vital para que corramos atrás de um objetivo é mais ativado quando ainda existe um certo grau de incerteza. Essa dúvida “se vai dar certo mesmo” é aquela que nos faz sentir uma pontada de medo se devemos ou não aceitar o desafio, o compromisso. Esse sistema de motivação para obter um resultado, quando tem certeza de que vai conseguir, não libera dopamina suficiente para agir, pois o cérebro considera que como a vitória é garantida, não há por que gastar energia para preparar, engajar. Já quando ele tem certeza de que vai ser impossível, ele não libera dopamina, pois considera que vai ser um desperdício motivar você a agir em prol daquela meta.

Portanto, no grau certo, a incerteza passa a ser nossa aliada e é justamente a falta de garantia do sucesso que faz a experiência ter tanto potencial de transformação.

Porque no momento em que o atleta amador decide competir de verdade, mesmo que seja contra si mesmo, ele passa a correr riscos.

Risco de cansar, de quebrar, de desistir, de não bater o tempo, de frustrar expectativas, de descobrir que talvez ainda não esteja pronto.

O problema é que muita gente foge exatamente disso.

Não porque não queira melhorar, mas porque fomos educados numa cultura que penaliza o erro de forma extremamente agressiva. Uma cultura que faz a pessoa acreditar que falhar numa meta significa ser um fracasso.

Então ela começa a evitar experiências no qual não consegue garantir controle total do resultado.

Só que existe um problema. A vida inteira funciona sem garantias e a competição expõe isso de forma brutal e exatamente por isso ela educa tanto.

Ela obriga o indivíduo a desenvolver maturidade emocional para continuar agindo mesmo sem garantia de sucesso.

Isso tem um valor gigantesco fora do esporte.

A competição ensina a pessoa a focar apenas naquilo que lhe cabe:

treinar,

descansar,

alimentar,

organizar rotina,

regular ansiedade,

persistir no processo.

Ela aprende que controlar tudo ao redor é impossível, inclusive que o resultado não está em suas mãos, mas sim no processo até ele.

Então começa, finalmente, a direcionar energia para aquilo que realmente pode controlar.

Isso reduz ruído mental.

Reduz ansiedade improdutiva.

Reduz necessidade obsessiva de validação.

A competição também confronta diretamente a identidade e isso revela algo profundo. A pessoa começou a atrelar valor pessoal ao desempenho. Porém a competição saudável faz exatamente o contrário quando bem conduzida. Ela ensina que resultado não define identidade. Resultado revela padrões.

Mostra como você reage sob pressão, como lida com medo, a capacidade de persistir. Revela se entra em pânico quando perde controle e se consegue continuar mesmo quando o cenário muda.

A prova vira um laboratório comportamental.

Por isso eu acredito que competir, quando feito com maturidade e orientação correta, pode ser uma ferramenta extremamente poderosa de desenvolvimento humano.

Não porque todos precisam competir. Ninguém precisa. Mas quem escolhe esse caminho frequentemente encontra algo muito maior do que medalhas ou pace.

Encontra autoconhecimento.

Porque quando o corpo fadiga, os filtros psicológicos diminuem e nesse momento aparecem os padrões reais.

O ansioso quer abandonar.

O impulsivo larga estratégia.

O inseguro desacelera cedo demais.

O controlador entra em sofrimento quando o plano muda.

O excessivamente rígido quebra mentalmente quando o cenário foge do previsto.

Mas também aparecem virtudes que muitas vezes estavam adormecidas.

Coragem.

Resiliência.

Capacidade de adaptação.

Humildade.

Persistência.

Confiança construída por evidências.

A competição cria experiências emocionais extremamente intensas e ela

têm enorme capacidade de remodelar comportamento e percepção.

Por isso o risco é tão importante.

Quando a pessoa evita totalmente o risco, ela também afasta a possibilidade de transformação. Porque o risco sempre ensina.

Às vezes através da frustração.

Às vezes através da superação.

Às vezes mostrando limites.

Às vezes revelando capacidades que ela jamais imaginou possuir.

Talvez esse seja um dos maiores presentes do esporte competitivo:

fazer alguém perceber que é muito mais forte, adaptável e capaz do que acreditava antes da largada.