A largada da primeira maratona pode ser extremamente intimidante.
Você olha ao redor e vê centenas, às vezes milhares de pessoas aparentemente prontas. Alguns aquecendo com intensidade, outros sorrindo. Alguns brincando, gritando, conversando alto, demonstrando confiança.
Enquanto isso, você pensa:
“todo mundo parece preparado, menos eu.”
“acho que não sou capaz.”
“Todo mundo vai conseguir, menos eu”
Isso faz muito sentido do ponto de vista da neurociência e do comportamento humano.
Você passou semanas ou meses acumulando fadiga física e mental. Fez treinos longos, acordou cedo, lidou com dores, dúvidas, oscilações emocionais, medo de não conseguir.
Seu cérebro sabe que algo importante está prestes a acontecer e por isso aumenta o estado de vigilância.
Área cerebral, responsável pela detecção de ameaças, aumenta sua sensibilidade, o estado de alerta. O cérebro começa a procurar sinais de perigo, incapacidade e risco ao redor.
O problema é que ele passa a interpretar o comportamento dos outros corredores como prova de que eles estão preparados e você não.
Você vê alguém aquecendo forte e pensa:
“ele está pronto.”
Vê alguém sorrindo e pensa:
“ela está tranquila.”
Vê alguém com postura confiante e conclui:
“todo mundo consegue, menos eu.”
E então surge aquela sensação de deslocamento. Como se você não devesse estar ali.
Isso piora quando você está sozinha, sem companhia, sem alguém experiente ao lado para normalizar aquele turbilhão emocional.
Mas existe uma armadilha cognitiva acontecendo ali.
Seu cérebro está comparando o seu estado interno com o comportamento externo das outras pessoas.
Porém você conhece suas inseguranças, as dos outros, não.
Muitas ali também estão ansiosos, mas manifestam de formas diferente.
Alguns ficam calados.
Outros falam sem parar.
Alguns se fecham.
Outros começam a rir excessivamente.
Alguns gritam:
“VAMOOOO!”
“Pra cima!”
É uma tentativa do cérebro de descarregara tensão emocional.
O corpo aumenta a ativação fisiológica e a pessoa tenta regular isso através da fala, da excitação, do movimento e da interação social.
Seu cérebro percebe toda aquela movimentação coletiva e entende:
“isso é importante.”
“isso exige atenção.”
“isso pode ser perigoso.”
Então, sua frequência cardíaca sobe, respiração muda, corpo tensiona, pensamento acelera e você interpreta isso como incapacidade.
Você não precisa parecer confiante para ser capaz. A maratona não exige ausência de medo. Ela exige continuidade apesar dele.
Quase ninguém naquela largada está totalmente tranquilo.
Inclusive muitos dos atletas que aparentam mais confiança já passaram pelas mesmas inseguranças que você está sentindo agora.
A diferença é que aprenderam a interpretar aquela ativação fisiológica não como sinal de incapacidade, mas como sinal de importância.
Seu cérebro não está “agitado” porque você é fraca, mas porque entende que aquilo importa.
A largada da maratona não reúne pessoas sem medo e sim aquelas que decidiram continuar mesmo sentindo medo e talvez seja exatamente isso que torna a maratona tão especial.
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